A contemplá-lo mudamente fico

E numa dor atroz mais me concentro:

E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

Meto-lhe a pena pela goela a dentro.

 

E solitariamente, pouco a pouco,

Do bojo tiro a pena, rasa em tinta…

E a minha mão, que treme toda, pinta

         Versos próprios de um louco.

 

E o aberto olhar vidrado da funesta

Ave que representa o meu tinteiro,

Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,

Toda a tremer pelo papel inteiro.

 

Dizem-me todos que atirar eu devo

Trevas em fora este agoirento corvo,

Pois dele sangra o desespero torvo

           Destes versos que escrevo.

 

 

*Extraído de “Kiriale” (1891-1895)