“Há sempre razões para matar um homem. Inversamente, é impossível justificar que viva. É por isso que o crime encontra sempre advogados, e a inocência, apenas às vezes.”

Impiedoso,

Erro à rua fria e pálida da Sorte,

Nevoeiros de outrens:

Ensaio, em notas

        de letras e morte!

 

Fundo, às calmarias,

engendram-se

vagas de manuseio,

desde o despertar envolto da

abnegação ao

não-poder…

Sob mim mastodontes, vestes!

                               Não há mais o ofício que me compete.

Humano e pleno, ó Calúnia,

lhe jogarei meu veneno

na aparência pura!

 

Cooperativismo a serviço de empreendimentos por um custo zero.

estufa para plantas semi-pronta, feita com bambu e amarras de fibra de Lança-de-são-jorge (Sansevieria cylindrica)

estufa para plantas semi-pronta, feita com bambu e amarras de fibra de Lança-de-são-jorge (Sansevieria cylindrica)

 

 

A contemplá-lo mudamente fico

E numa dor atroz mais me concentro:

E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

Meto-lhe a pena pela goela a dentro.

 

E solitariamente, pouco a pouco,

Do bojo tiro a pena, rasa em tinta…

E a minha mão, que treme toda, pinta

         Versos próprios de um louco.

 

E o aberto olhar vidrado da funesta

Ave que representa o meu tinteiro,

Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,

Toda a tremer pelo papel inteiro.

 

Dizem-me todos que atirar eu devo

Trevas em fora este agoirento corvo,

Pois dele sangra o desespero torvo

           Destes versos que escrevo.

 

 

*Extraído de “Kiriale” (1891-1895)

 

  

   Criação, não me importam teus faustos esplendentes

nem tuas campinas nem teu doce bucolismo

siciliano; tampouco tuas magias aurorais

ou a maravilhosa visão de teus poentes.

 

   Eu me privo da Arte, do Homem, dos versos,

dos templos helênicos e das espirais

que no Céu vazio afundam as catedrais,

e os bons dão-me o mesmo que os perversos.

 

   Eu não creio no Deus que me deu, cruel e cego,

a angústia de pensar, e maldigo e renego

o Amor, essa velha e trágica ironia;

 

   sem amor à vida e temendo a morte,

sou um barco perdido ao azar da sorte,

que se fundirá na sima sem fundo qualquer dia…. 

 * “A angústia”, traduzido do espanhol; extraído da edição “Poemas Saturnianos” (Buenos Aires, 1944)